Administração e Contabilidade Pública como campos científicos

Já parou para pensar na Administração Pública e Contabilidade Pública como campos científicos? Quando você escreve um artigo sobre estes temas, se preocupa com a contribuição de sua abordagem em levantar discussões e mudar o “estado da arte” sobre determinado assunto?

Pois bem, comecei a me perguntar sobre isso enquanto cursava uma disciplina no curso de doutorado, que me fez perceber que apesar de as contribuições científicas serem como pequenos “tijolos” no campo científico, para realmente fazer a diferença, precisamos ter uma visão mais ampla sobre aquilo que pretendemos estudar.

Para expandir nossa visão, é preciso entendermos que o campo da administração pública é permeado por outras ciências e disciplinas e que essa interdisciplinaridade tão ampla foi apontada por muitos como um fator que em conjunto com a falta de uma metodologia específica, dificultam uma consolidação. Percebe-se também uma grande  dissociação entre, de um lado, a teoria como forma de pensar e explicar os fenômenos da realidade, e, de outro, a prática, que define as técnicas e os meios pelos quais essa realidade se materializa (Farah, 2014). Os problemas pensados pela administração e contabilidade públicas no contexto acadêmico não parecem estar voltados para a resolução de situações práticas

Esse lapso entre teoria e prática só será superado quando os pesquisadores descerem de suas “torres de marfim” e se preocuparem com questões práticas, cotidianas da administração pública (Bogason & Brans, 2008). Esses problemas geram imediatamente uma reflexão: o que podemos fazer  (enquanto pesquisadores) para mudar isso?

Em relação ao Brasil, Farah (2014) aponta que existe um longo caminho a ser percorrido, pois em geral os trabalhos apresentam apenas resultados empíricos com pouca ou nenhuma geração de novos conhecimentos específicos para o campo. Em relação à discussões de caráter teórico e metodológico que possam somar e aprofundar o teor científico da administração pública, essas são apontadas por Fadul, Silva e Silva (2012) como uma das maiores carências do campo no Brasil.

O que se percebe examinando as áreas de concentração dos principais congressos e revistas do país, é que apesar de haver um espaço exclusivo para “contabilidade e administração aplicadas ao setor público”, grande parte dos autores têm concentrado suas pesquisas em conceitos que não são e não agregam valor para os campos (Fadul, Silva & Cerqueira, 2011). Em outras palavras, há uma grande confusão quanto ao foco das pesquisas, o que ocorre é que quaisquer pesquisas que ocorrem dentro das organizações públicas de forma geral, vem sendo classificada erroneamente no campo da administração publica.

Ainda falando do contexto brasileiro, boa parte dos trabalhos publicados são estudos de caso sobre aspectos muito específicos para uma dada organização ou feitos com falta de metodologia adequada (Fadul et al., 2014). E mais, utilizam-se análises práticas que se baseiam em conhecimentos e produções científicas estrangeiras, sem grande reflexão ou adequação à realidade nacional, transplantando modelos concebidos, muitas vezes, para realidades bastante distintas. Concomitantemente, as pesquisas em administração pública e contabilidade pública também se vinculam às normas, tanto por estarem inseridas no contexto governamental, como pelos impactos causados pela normatização no âmbito da contabilidade pública. Esses fatores influenciam – negativamente – a pesquisa científica no campo.

Agora que sabemos dessas fragilidades e problemas relacionados a estes campos, nossa responsabilidade enquanto pesquisadores aumentou! Essas constatações foram feitas por pesquisadores que se preocuparam em diagnosticar nosso campo de pesquisa, e nos ajudam a entender nossa evolução e dificuldades. Agora é preciso pensar criticamente em soluções e novas metodologias para nossas pesquisas e projetos, só assim poderemos ajudar a academia a realmente desenvolver caminhos para superar os problemas práticos enfrentados nas organizações públicas.

Sem título

Referências do Texto:

BOGASON, P. & BRANS, M. Training and Teaching: making public administration teaching and theory relevant.European consortium for Political Research (84-97), v.7, 2008.

FADUL, E. M. C. SILVA, L. P. CERQUEIRA, L. S. Análise do Campo da Administração Pública através da produção científica publicada nos anais dos EnAPGS. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, v. 16, n. 59, art. 9, p. 1-16, 2011.

FADUL, E. M. C. SILVA, M. A. SILVA, L. P.  Ensaiando interpretações e estratégias para o campo da administração pública no Brasil. Rev. Adm. Pública — Rio de Janeiro 46(6):1437-58, 2012.

FADUL, E. M. C.; COELHO, F., COSTA, F. L., & GOMES, R. C. Administração pública no Brasil: reflexões sobre o campo de saber a partir da Divisão Acadêmica da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (2009-2013). Revista de Administração Pública, v. 48(5), 1329-1354, 2014.

FARAH, Marta Ferreira Santos. Public Administration and the Field of Public Policy Studies in the USA and Brazil, Journal of Comparative Policy Analysis: Research and Practice, 16 (1), 45-61 2014.

 

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