Voltando a falar sobre distribuição de renda e desigualdade

Em outubro do ano passado conversamos um pouco sobre o Índice de Gini e desigualdade social (aqui). O referido post, inclusive, tem tido mais visualizações nos últimos meses do que na época de sua publicação. Essa é a internet!

Pois bem, hoje vamos voltar a conversar sobre distribuição de renda e desigualdade no Brasil, trazendo novas informações e reflexões. Entendo ser importante o assunto, principalmente neste momento, visto que é temerário (para não dizer irresponsável e absurdo) qualquer tipo de projeção de atuação do Estado, de implantação de reformas ou de gestão da coisa pública, sem levar em consideração esse contexto.

A primeira reflexão é sobre o próprio Índice de Gini. Como já tínhamos comentado na postagem anterior, após quinze anos de queda (quanto menor o índice, menor a desigualdade de renda), em 2016 o indicador voltou a subir. O relatório “País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras”, de 2018, da Oxfam Brasil (confederação global de combate a pobreza e desigualdade) demonstra não só a interrupção da queda do índice, mas os reflexos disso para o país. A Figura 01 evidencia o período de queda e, também, o crescimento e estagnação do índice.

Figura 01: Brasil – Gini de renda e razão da renda dos 40% mais pobres em relação à média nacional 2002-2017.Oxfam02Fonte: Oxfam Brasil (2018).

 

Ainda segundo o relatório, em virtude dessa estagnação, o Brasil passou da 10º para a 9º posição no ranking global de desigualdade de renda. Na figura a seguir, alguns outros reflexos.

Figura 02: Reflexos da estagnação – Cenário geral.
oxfam-1.pngFonte: Oxfam Brasil (2018).

 

Outros dois estudos recentes, esses conduzidos e publicados pela World Inequality Database – WID.world (instituto internacional codirigido pelo economista francês Thomas Piketty), também trazem reflexões bem interessantes acerca do tema.

O primeiro deles é o “Falling Inequality beneath Extreme and Persistent Concentration: New Evidence for Brazil Combining National Accounts, Surveys and Fiscal Data, 2001-2015”, que aprofunda e detalha a questão da desigualdade no cenário brasileiro nas duas últimas décadas. De acordo com o estudo, o crescimento de renda no período não foi suficiente para reduzir de forma consistente a desigualdade, visto que foi absorvido na sua maior parte pelos 10% mais ricos da população.

Para chegar nessa contatação, a pesquisa, que exclui de sua base as transferências de renda, tais como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, se vale dos seguintes achados (período de 2001 a 2015):

  • A renda dos 10% mais ricos passou de 54,3% para 55,3% (1 ponto percentual).
  • A renda dos 50% mais pobres também subiu 1 ponto percentual, passando de 11,3% para 12,3%.
  • A renda nacional total cresceu 18,3% no período, mas 60,7% desses ganhos foram apropriados pelos 10% mais ricos, contra 17,6% dos mais pobres.
  • A expansão constatada impactou negativamente nos 40% da população inseridos na faixa intermediária de renda (classe média), cuja participação na renda nacional caiu de 34,4% para 32,4%.
  • O 1% mais rico no Brasil ganha mais que o 1% mais rico na França (Brasil: Cerca de US$ 541 mil; França: entre US$ 450 mil a US$ 500 mil).
  • A renda média dos 90% mais pobres no Brasil é comparável à dos 20% mais pobres na França.
  • Incluindo as transferências de renda, a participação dos mais pobres em 2015 seria de 14%, mas a evolução da renda dos 10% mais ricos permaneceria inalterada, achatando ainda mais a participação da classe média.

O segundo estudo da WID.world, o Extreme inequality: evidence from Brazil, India, the Middle East and South Africa,  de 2018, ressalta essa desigualdade extrema no Brasil e coloca em comparação com outros países, desenvolvidos ou não. A figura a seguir compara a distribuição da renda nacional entre os 50% mais pobres (Bot.), os 40% da classe média (Mid.) e os 10% mais ricos (Top) entre os países e regiões estudadas. Destaque para a elevadíssima concentração de renda dos 10% mais ricos e, também, o achatamento da classe média, no Brasil, Índia, África do Sul e Oriente Médio..

Figura 03: Distribuição de renda no mundowidFonte: WID.world (2018).

Por fim, algumas conclusões do estudo:

  • Esses níveis extremos de concentração de renda têm direcionadores diferentes. Enquanto alguns estão enraizados no legado de hierarquias sociais e direitos de propriedade do passado, outros estão associados ao funcionamento das economias capitalistas modernas.
  • As diversas origens da extrema desigualdade destacam a necessidade de diferentes respostas políticas para enfrentá-la, incluindo mecanismos de redistribuição regional, reformas agrária e fiscal, além de investimentos em saúde, educação e infraestrutura em prol dos pobres.

 

Quer saber mais? Acesse os links e leia os estudos. Acompanhe essas instituições!

– –
Fontes:

Renda recua e Brasil se torna o 9º país mais desigual (Agência Brasil).

Oxfam Brasil.

Desigualdade de renda no Brasil não caiu entre 2001 e 2015, revela estudo (Agência Brasil).

World Inequality Database (WID.world).

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